Historia

São Paio de Oleiros

*A Festa da Senhora

da Saúde e de Santo António *


A festa em honra de Nossa Senhora da Saúde e de Santo António, em S. Paio de Oleiros, que se efetua no mês de Agosto e foi considerada «a maior romaria do distrito de Aveiro», mantém, ano após ano, o seu tradicional brilhantismo e continua a concitar a visita de incontáveis forasteiros provenientes de todo o lado.

Não é fácil datar o início destas festividades, porque não se encontrou, até 1897, nenhum documento que a elas claramente se referisse. Sabe-se, por informação do historiador José Mattoso que já haveria em S. Paio de Oleiros, festividades paroquiais de primavera e verão, pelo menos no séc. XIII, podendo ser a de verão em honra do S. Paio ou Pelágio, orago da nossa paróquia, que a Igreja celebra a 26 de Junho. Essas festas pelagianas são confirmadas nas Memórias Paroquiais de 1758, embora não se saiba nem a sua dimensão nem as suas componentes.

Se a Virgem foi alvo de festividades especiais, o que não seria de admirar em terras de Santa Maria, não se pode esquecer que, por volta de 1435, segundo as Memórias Paroquiais, a nossa paróquia, graças a diversas esterilidades, pestes, fomes e guerras, ficou reduzida a 5 habitantes e foi anexada à paróquia de S. Miguel de Arcozelo pelo menos atá ao século XVIII, sendo bastante lenta a sua recuperação demográfica, o que não daria para a organização de festividades de grande vulto.

Por isso, os que se referem a uma festa multissecular da Senhora da Saúde estão pela certa equivocados, primeiro porque a primeira festa sob essa invocação em Portugal realizou-se em Lisboa em 1570, depois porque nenhum inventário do património paroquial anterior ao de 1910, incluindo as Memórias Paroquiais de 1758, mencionam qualquer altar ou imagem da Senhora da Saúde existente na nossa Igreja, muito menos na Igreja Velha.

O espírito imitativo preside muitas vezes a estas manifestações piedosas e profanas e, por isso, não é de desprezar que a Senhora da Saúde em Oleiros tenha nascido da vontade de imitar a festa homónima dos Carvalhos. Ora, segundo se pode ler em material de divulgação dos festejos daquele lugar de Pedroso, ela terá tido início na segunda metade do séc. XIX. Por isso, precisaríamos de algum tempo para replicar aqueles grandiosos festejos, onde iam e continuam a ir muitos oleirenses.

Um documento de 1862, transcrito num livro de Contas da Paróquia do tempo do Pároco José Ferreira de Almeida, faz alusão aos arraiais nos dias festivos, mas não especificam de que festa ou festas se tratava.

O mesmo livro, contudo, menciona, numa lista de “esmolas particulares de confrarias desta freguesia” o saldo de várias festividades que já teriam alguma tradição local: a da Senhora da Conceição (1890, 1891, 1892) e a do Sagrado Coração de Jesus (1891). Outras vêm mencionadas nos jornais regionais, como: a do Santíssimo Sacramento (1903, 1940), a do Sagrado Coração de Jesus (1907), por vezes a de S. Pedro, no lugar do Monte, junto à loja do Couto, mais tarde chamada do Toninho.

Mas a festa da Senhora da Saúde é, de facto, secular: tem, comprovadamente através dos imprescindíveis documentos, pelo menos 120 anos. Outros documentos poderão ainda aparecer, mas a primeira menção mais ao menos clara a esse evento, surge, nos mesmos registos de prestação de contas pelo punho do Padre José Ferreira de Almeida, em 1897, quando ele se reporta a uma verba de 7.500 réis paga «aos Pintos pedreiros antes da Festa de Agosto pela continuação do muro do adro do lado do mar». Deduzimos tratar-se dessa festividade, porque ela sempre foi em Agosto e, porque, outras informações posteriores complementam esta última e até de forma mais inequívoca, como, por exemplo: em 1900, “compra de panno de linho para a toalha e guarda-pó para a Sr.ª da Saúde e feitio”, “compra d’uma manga da Cruz para a festas” e, ainda, uma esmola d’um devoto da Senhora da Saúde” (a palavra “devoto“ pressupõe festas anteriores); em 1902, encontramos a referência à “compostura do caminho pela Senhora da Saúde” e “obras da casa dos mordomos”; em 1904, “dinheiro recebido do legado Sá Couto para a Sr.ª da Saúde” e, outra vez “compostura do caminho pela Sr.ª da Saúde”; em 1905, “compra d’um manto bordado a ouro de setim [sic] azul para a Nossa Senhora da Saúde”; em 1906, aquisição de um “pluvial ou capa de asperges de damasco florido para as festas» e “uma pedra de ara para o altar da Senhora da Saúde e, em 1907, o pagamento a “quatro mulheres a lavar toda a Egreja antes da festa da Sr.ª da Saúde. Enfim, dez anos de alusões constantes à nossa festa e, simultaneamente, referências a aquisições de paramentos, utensílios e meios indispensáveis à sua realização e ao seu enriquecimento.

Como não conhecemos documentos anteriores à construção da Igreja atual que aludam à Senhora da Saúde, isso leva-nos à conclusão, enquanto outras provas não surgirem, que esta devoção se iniciou depois das obras iniciadas em 1885 e que se foram prolongando durante alguns anos: em 1888, ainda estavam a construir os púlpitos, trabalhava-se na cimalha da Igreja e na sua pavimentação; no ano seguinte, espalhava-se saibro ainda no seu interior e exterior; em 1891, colocava-se o guarda-vento e uma grade no nicho do padroeiro e, em 1896, construía-se a escadaria que liga o adro ao arraial. Não sabemos se poderia haver festa com todo um estaleiro a estorvar o movimento das pessoas e a organização de uma procissão ou de um arraial.

Mas, se o pároco foi uma personagem indispensável à dinâmica da nova construção, outra se lhe juntou para que a história desembocasse em festividade e houvesse os meios sempre indispensáveis nestas circunstâncias. Tratou-se do Comendador Joaquim de Sá Couto, um dos oleirenses mais ilustres de sempre, industrial do papel, premiado em exposições internacionais. Em devida altura, já ele tinha suportado as despesas com a construção do altar-mor e o da Senhora da Saúde, mas, não contente com isso, ao verificar que a saúde lhe ia faltando e ao pressentir os passos da morte, deixou, no seu testamento, vários legados que muito viriam a beneficiar S. Paio de Oleiros, mas também os dois concelhos que ele muito estimava: a Feira e Espinho.

Assim pode ler-se nas suas últimas disposições, ditadas em 14 de Março de 1899:

Quero que a minha mesma herdeira entregue dentro de um anno, a contar do meu fallecimento, á junta da parochia da minha freguezia, a quantia de cem mil reis, destinados á ornamentação e alfayas do altar e augmento do culto de Nossa Senhora da Saude, que se venera na respectiva igreja, e que não é de irmandade legalmente erecta.

Dona* *Morte levou o Comendador em 24 de Janeiro de 1902 e o pároco, escrupuloso como sempre, lá anotou, como já vimos, a verba correspondente nas receitas de 1904/05.

No entanto, a palavra “augmento” naquele período do testamento é decisiva: dá-nos a possibilidade de pressupor que o culto de Nossa Senhora da Saúde estava apenas no seu começo (ainda não tinha sequer uma “irmandade legalmente erecta” – diz o testamento), teria apenas alguns anos e era preciso fornecer-lhe meios para o divulgar e propiciar, pois Sá Couto estava claramente interessado em alargar ainda mais esta sua devoção particular à mãe protetora, talvez acreditando que a Virgem lhe daria as forças que lhe faltaram para escrever o testamento pelo seu punho e para enfrentar os restantes dias de vida nas vésperas dos 80 anos.

Mas o sonho do Comendador era ainda mais abrangente: o testamento destinava ainda uma verba de cento e vinte contos de réis (avaliados, nas vésperas do início do século XXI, em 2,5 milhões de contos), para a construção de um Hospital-Asilo em S. Paio de Oleiros, que haveria de ser inaugurados em 1909 e a que pretendia se desse o nome, como veio a acontecer, de «Hospital-Asylo de Nossa Senhora da Saúde». Previa ainda a construção de uma capela anexa, sob a mesma invocação. Os mais desvalidos eram, assim, por obra do Comendador, considerados prioridade das prioridades no tratamento do seu corpo e da sua alma, pelo que essa nobre missão precisaria realizar-se sob a invocação e com o auxílio maternal da Senhora, por quem dava provas de tanta confiança.

Além disso, essa invocação justificava-se nesta terra, porque estaria ainda na memória coletiva dos oleirenes as tais «pestilências, guerras e esterelidades tan crueis que reduziram a quase ninguém a Abadia de Oleiros, razão pela qual a imagem de S. Sebastião, o santo que livra os crentes da peste, é, em Oleiros, mais antiga do que a da Senhora da Saúde e desfila também com ela na procissão de Agosto.

Por uma questão de comodidade, dizemos que a festa é a da Senhora da Saúde. Mas a designação correta é “festa da Senhora da Saúde e Santo António”, o que pressupõe tratar-se, no início, de dois projetos autónomas que acabaram por confluir numa só festividade, ainda que dedicada à especial veneração de cada uma das entidades em dias diferentes e consecutivos.

Em 1900, surge nos jornais a primeira menção à já então tradicional “festa de Maio” em honra de Santo António, e que era também conhecida por “festa dos novos” porque era “promovida por um grupo de rapazes, bons católicos desta freguesia”. A imprensa regional, sobretudo o Correio da Feira, dá conta da sua realização em muitos anos, como, por exemplo, 1903 e 1913.

Foi, no entanto, em 1935 que, “em atenção às despesas com que os mesários mal podiam”, foi resolvido reunir numa só a festa da Senhora da Saúde e a de Santo António. Também se decidiu nessa altura ratificar «duma vez para sempre» a decisão já tomada em 1932 de a realizar no sábado, domingo e segunda-feira posteriores ao dia 15 de Agosto.

Ocorreram, entretanto, outras festas, algumas devidas a promessas, mas a da Senhora da Saúde e Santo António passou a ser a mais assídua, muitas vezes com o auxílio dos emigrantes, sobretudo do Brasil e, posteriormente, de França.

Só raras vezes não se terá realizado, ainda que tivesse sido uma ou outra vez causa de polémicas por vezes graves, como aconteceu em 1929, no tempo do Padre Joaquim Ferreira Salgueiro, devido a uma verba mais controversa das contas da festa. Entraram em conflito a Comissão do ano anterior e o pároco, defendido pela Comissão daquele ano, e tudo culminou num grave ultraje àquele sacerdote, que se viu obrigado a deixar a paróquia, ainda que tenha regressado duas ou três vezes, convidado como orador sagrado das festas. Em 1977, a população voltou a dividir-se em duas fações em relação à equipa presbiteral da paróquia de então, devido a vários fatores, entre os quais o fervor revolucionário pós-25 de Abril, novos regulamentos da diocese no tocante a festas e as interpretações diferentes das relações entre o religioso e o profano, ocorrendo, então, factos muito graves na residência paroquial e na igreja, que levaram o Bispo a interditar esta última, a declarar que a Comissão de Festas ficaria privada de exercer “os actos legítimos eclesiásticos nos termos do Direito Canónico”, a exonerar o pároco, que já renunciara, e a atribuir essa função ao da vizinha freguesia de Nogueira da Regedoura.

É certo também que não houve festa em 1933 (e possivelmente no ano seguinte), mas isso deveu-se à crise económica que então se vivia e por se terem nomeado alguns mesários que já tinham servido na festa anterior e que não quiseram, como acontecera no ano anterior, ver-se de novo obrigados a doar do seu bolso “fintas” avultadas em dinheiro para cobrir as despesas.

No entanto, quem mais manda é a tradição e a crença que continuam a encher os arraiais festivos e a integrar na procissão, ano após ano, milhares de peregrinos e devotos à Senhora. Acreditam que ela curará as maleitas do corpo e do espírito e que o milagreiro Santo António não deixará de fazer o grande prodígio de fazer com que vivam longamente felizes.

S. Paio de Oleiros, 13 de novembro de 2017

Anthero Monteiro

Procissão Nª Srª Saúde e Stº António - S. Paio Oleiros 2018

Procissão Nª Srª Saúde e Stº António - S. Paio Oleiros 2018

Abrir site

Patrocinadores - Comissão Festa Nª Sª da Saúde e S to António 2018

Agradece-mos desde já toda a colaboração prestada.

Abrir site